sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

VELHICE ÓTIMA - É POSSÍVEL??

Mesmo antes de chegar na terceira idade sempre me interessei por este assunto e observava bastante o comportamento dos "mais velhos".
Agora que estou em plena "terceira idade" com quase 65 anos, comecei a fazer leituras específicas sobre este último estágio da vida.
Antes de transcrever textos que tenho pesquisado quero expressar como me sinto convivendo com toda esta rica experiência de 64 anos vividos e bem vivenciados!
(Vivenciado -Viver determinado momento de modo que o mesmo tenha um significado profundo).
Sinto-me jovem, não fisicamente, mas mentalmente, porque tenho vontade de viver de maneira intensa, sempre querendo conhecer coisas novas, lugares diferentes. Gosto muito de ler, fazer atividades físicas, artes manuais. Tenho interesse no aprendizado constante e sempre digo que queria ser "três em uma" para poder realizar tantas coisas que tenho vontade! Isto são sintomas de velhice? Não!
Os textos que vou redigir são extraídos de uma coleção "A Terceira Idade" do Sesc que contém vários artigos sobre a valorização da pessoa idosa e vieram bem de encontro com as minhas ideias e concepções sobre este assunto.

"Existem  pessoas que têm mais de 70 anos, aparência e vitalidade de 50 e vice-versa. Dependendo da época em que viveram sua infância e juventude, de seu estilo de vida, educação e maneira peculiar como estruturaram seu curso de vida, diferentes pessoas envelhecem de maneiras diferentes.
Outra noção importante é que a velhice não é um período caracterizado só por perdas e limitações. Embora aumente a probabilidade de doenças e limitações biológicas, é possível manter e aprimorar a funcionalidade nas áreas física, cognitiva e afetiva.
Dominar o segredo da arte de viver, julgar com precisão, aconselhar em decisões que envolvem as incertezas da vida é algo que está reservado especificamente aos idosos (muito embora a idade em si própria não garanta o alcance de altos níveis de sabedoria por todos os indivíduos).
A idade do início da velhice é uma questão que não comporta um critério único e invariável, no tempo ou entre culturas. Além disso, a antropologia do envelhecimento tem chamado a atenção para o fato de a sociedade de consumo promover um mascaramento dos limites etários, uniformizando roupas, programas televisivos e estilo de vida, a partir de um padrão definido e valorizado como jovem.
Schroots e Birren (1990) apresentam uma tríplice visão do envelhecimento, que contempla as influências biológicas, sociais e psicológicas atuantes sobre o desenvolvimento humano. Segundo esses autores é necessário distinguir entre a senescência, a maturidade social e o envelhecimento.
A senescência é referente ao aumento da probabilidade da morte, com o avanço da idade. A maturidade social corresponde à aquisição de papéis sociais e de comportamentos apropriados aos diversos e progressivos grupos etários. O envelhecimento corresponde ao processo de autorregulação da personalidade, e é inerente aos processos de senescência e maturidade social, todos os três referenciados e simbolizados pelo tempo dos calendários e a idade cronológica.
A idade cronológica é, portanto, um parâmetro adotado pelas disciplinas do desenvolvimento, que se movem entre várias noções de tempo: físico, biológico, ecológico, social, psicológico e intrínseco.
Na verdade, estamos diante de um dos grandes desafios da psicologia do envelhecimento, o de conciliar os conceitos de envelhecimento e desenvolvimento na velhice, bem como as condições capazes de acelerar, retardar, otimizar e compensar os resultados das mudanças provocadas pela velhice.

Concepções da Teoria de curso de vida sobre o desenvolvimento na velhice:

Existe diferença entre velhice normal, ótima e patológica:
Velhice normal - ausência de doenças físicas ou mentais. Com uma alimentação equilibrada, exercícios, controle de uso de álcool, drogas e remédios, controle de condições excessivamente estressantes, ambiente de trabalho mais para saudável, mais e mais pessoas estão se tornando capazes de chegar aos 60 ou 70 anos, em boas condições de saúde física e mental.
Velhice ótima - um tipo de utopia ou ideal científico e cultural. Implica melhores condições pessoais e sociais para um envelhecimento satisfatório.
Velhice patológica – presença de doenças crônicas ou de doenças e síndromes típicas da velhice, que implicam dependência crescente.
Ao se contrastar velhice ótima e patológica, emergem dois cenários radicalmente diferentes. Um é visão otimista do futuro da velhice, caracterizada por um estado geral de bem-estar para as futuras coortes etárias (conjunto de pessoas que compartilham uma mesma característica). Este é o cenário preferido pela pesquisa médica em gerontologia, que por um lado lida com a melhoria das condições de vida do idoso até o seu limite de longevidade, definido hoje como 90 anos, com um desvio padrão de 10 a 15 anos, de modo a desacelerar o processo patológico normal.
A perspectiva, nesse caso, seria que as pessoas morressem com saúde.
O outro é uma visão pessimista, embora realística, a do envelhecimento patológico.
O envelhecimento é uma experiência heterogênea
Uma noção básica, desde que a gerontologia emergiu como campo científico, é que haveria alto grau de similaridade entre as pessoas, à medida que envelhecem. Porém, a evidência oferecida pelos estudos longitudinais sobre a inteligência na velhice não corroborou essa expectativa. A maioria das pessoas mantém o desempenho, em testes (cerca de 63%, entre os 60 e 70 anos); cerca de 30% mostram estabilidade,  e 10 e 7% apresenta ganhos. Na faixa dos 71 aos 80 anos, 52 mostram estabilidade, 40% mostram perdas e 8% ganhos (Schaie, 1990).
Na velhice ocorrem ganhos e perdas. Há potencialidades e limitações, como em todo o curso do desenvolvimento, mas o equilíbrio entre os ganhos e perdas torna-se menos positivo ou mesmo negativo. Faz parte do conhecimento comum que o velho se torna mais lento e precisa mais tempo que o jovem para se recuperar, após um período de esforço físico ou mental. Sabe-se que ele também é mais susceptível a doenças, a acidentes pessoais e ao stress.  A área do envelhecimento cognitivo tem sido especificamente feliz na produção de dados na direção dessa proposição. Assim, sabe-se que a inteligência fluida declina com a idade, ao passo que a cristalizada avança. O enfoque de curso de vida postula que o desenvolvimento, do nascimento à morte, é presidido por uma dinâmica constante de equilibração entre ganhos e perdas. A implicação cultural de semelhantes dados é que a velhice pode ser favorecida pela criação de ambientes dotados de equipamentos, tecnologia e  oportunidades educacionais que permitam aos idosos desenvolver estratégias compensatórias às suas perdas de desenvolvimento. São exemplos de possibilidades compensatórias o uso de aparelhos para reduzir déficits sensoriais, a frequência a grupos de lazer e de educação continuada, o desenvolvimento de novas habilidades intelectuais ou artísticas, as atividades físicas, a religiosidade, o investimento na especialização profissional, dentre outras. A sociedade, mediante suas instituições, deve estar atenta à necessidade de criar boas condições de vida para as pessoas em todas as idades e para os idosos, naturalmente. Na velhice, o self continua a ser um poderoso e resiliente sistema de autorregulação de manutenção da integridade. Embora chame a atenção e desafie o senso comum, mesmo em condições estressantes, de perda e desamparo, é muito comum que os mais velhos não sejam afetados em sua autoestima, em seu bem-estar e em seu senso de controle. Isso mostra o enorme poder dos humanos para reorganizar e reajustar o self, em resposta a diferentes circunstâncias da vida. Essa capacidade é identificada com a presença de resiliência  psicológica, isto é, a capacidade de manter ou recuperar os níveis de funcionamento normal, mesmo em casos de grande ameaça à personalidade e à adaptação normal do indivíduo.
A  resiliência, e sua contrapartida, a vulnerabilidade psicológica em idosos, depende de fatores tais como: saúde física real e percebida, renda, nível educacional, estilo de vida, experiências anteriores de perda ou de desafio à resiliência, rede de suporte social de que dispõe o indivíduo e vários outros. A capacidade de adaptação ou resiliência do self  é,  assim, uma espécie de capa protetora contra as adversidades associadas ao envelhecimento.
A Psicologia tem três explicações para essas ocorrências:
O self não é unitário, mas um sistema de selves e de possíveis selves. Assim, se um fica prejudicado, outro se desenvolve.
Existe possibilidade de mudança de metas e de níveis de aspiração, em virtude de conhecimento e aceitação das limitações impostas pela velhice.
Existe possibilidade de encontrar novos pontos e critérios de comparação, quando mudam as circunstâncias. Ex: na velhice ou na presença de uma incapacidade, procurar novos grupos de referência, formados por iguais ou então por pessoas em piores condições são benéficos, porque permitem à pessoa encontrar novos parâmetros de autoavaliação e de autoeficácia.”


 Neri, Anita L..O Desenvolvimento Integral do Homem. Revista do SESC- A Terceira Idade - Ano VI - Nº 10-Julho de 1995 (4-15).


quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

O que é vencer na vida?

O que representa a vitória em nosso viver?
O que é ser vencedor?
Vitória na profissão?
Vencer as dificuldades em um relacionamento?
Vencer as barreiras de velhos costumes para uma saúde perfeita?
Vitória financeira, independente de influências externas?
Eu entendo que precisamos de um equilíbrio, sensatez e de uma base sólida mental e espiritual para sermos vencedores.
Ser vencedor é uma sensação forte e prazerosa de realização,  que se conquista só depois de uma tremenda batalha! Sim, para conseguir chegar neste patamar é preciso, antes, muitas lutas.
E nosso primeiro combate , primeiro conflito em nossa existência é a luta interior, vencer a si mesmo! Vencer as próprias dificuldades! E não é fácil!
Comecei a meditar sobre isto quando li uma mensagem no livro- Mananciais no Deserto - de Lettie Cowman, a qual transcrevo alguns trechos interessantes:
" Em todas estas cousas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou." (Rm 8.37)
"Como nos tornamos mais que vencedores"?
Adquirindo durante o conflito uma disciplina que fortalecerá muito a nossa fé e consolidará o nosso caráter espiritual. O conflito é necessário para nos firmar e confirmar na vida espiritual. É como o fogo para as cores de uma pintura em porcelana, ou como os ventos, que ao baterem contra os cedros, mais os levam a fixar-se no solo. Nossos conflitos espirituais devem ser contados entre as mais preciosas bençãos, e o grande adversário é usado para nos treinar para a sua própria derrota. Segundo uma lenda dos antigos frígios, toda vez que eles venciam um inimigo, o vencedor absorvia o vigor físico de sua vítima, e isso era acrescentado à sua força e valor. De semelhante modo, a tentação enfrentada vitoriosamente redobra-nos a força e as reservas espirituais. Podemos, assim, não apenas derrotar o inimigo, como também capturá-lo e fazê-lo combater em nossas fileiras...
...Assim como o marinheiro usa o vendaval para avançar, manobrando e aproveitando o seu impulso, assim também nos é possível, na vida espiritual, pela graça de DEUS, tirar proveito de fatos e circunstâncias que parecem ser os mais desagradáveis e adversos...
...Tem-se pensado comumente que comodidade e segurança são as condições mais favoráveis de vida; no entanto, todos os homens nobres e fortes provam , ao contrário, que a resistência nas adversidades é que molda os homens de caráter, e distingue uma mera existência de uma vida vigorosa.
As dificuldades formam caracteres.
"Mas graças a DEUS que sempre nos conduz em vitória no Ungido, e manifesta por meio de nós a fragrância do conhecimento dele, em todo lugar". (2 Co 2.14 - tradução literal)

domingo, 2 de novembro de 2014

Cristo é o único Sacerdote Verdadeiro

O tema de Hebreus é a total supremacia e suficiência de Jesus Cristo como revelador e mediador da graça de DEUS.
O início do texto (prólogo) apresenta Cristo como a plena e definitiva revelação de DEUS, ultrapassando em muito a revelação preliminar e limitada do Antigo Testamento (AT).
 As profecias e as promessas do AT são cumpridas na "nova aliança" ( ou "novo testamento"), da qual Cristo é o mediador.
Com base no próprio AT, demonstra-se que Cristo é superior aos profetas antigos, aos anjos, a Moisés (o mediador da antiga aliança), bem como a Arão e à sucessão sacerdotal que dele descendia.
O autor de Hebreus mostra que a piedade cultual do Antigo Testamento ligada ao Templo e aos sacrifícios não assegura o perdão e a comunhão com DEUS.
O único ato salvador a obter de uma vez por todas o perdão é o sacrifício de Jesus, que derramou seu sangue e entregou sua vida por nós. Ora, Jesus não realiza nada parecido com uma oferenda religiosa nos moldes cultuais judaicos: em lugar de uma ação sagrada realizada no recinto do Templo e com rituais precisos, ele morreu fora do Templo e da cidade santa, como criminoso eliminado da sociedade.
Jesus é, portanto, o único mediador entre DEUS e os homens. Doravante, é ele o único santuário e sacerdote, e o sacrifício por ele realizado é, daqui por diante, o único agradável a DEUS. (9,11-14).
As consequências são radicais:
 - Exceto Jesus, nada mais é absoluto: nenhuma instituição ou estrutura, tanto civil como religiosa, tem caráter absoluto e intocável. Sendo único mediador, Jesus abre completamente a comunicação entre DEUS e os homens, e dos homens entre si.
 - O povo está livre para participar inteiramente da realidade de Jesus e, portanto, ter acesso à intimidade com o próprio DEUS.
 -  Frente à pessoa e vida de Jesus, todas e quaisquer instituições, estruturas religiosas ou civis têm caráter relativo e provisório, sendo passíveis de revisão crítica, reformulação e renovação.
 - O verdadeiro culto a DEUS se realiza através da própria vida. O modo de servir a DEUS não são ritos religiosos, mas obediência à sua vontade, que se manifestou radicalmente na doação vivida por Jesus até à morte.(10, 1-10).
O único valor do culto consiste em expressar, concreta ou simbolicamente, o culto que os homens prestam a DEUS através da própria vida.

Textos extraídos: Bíblia Sagrada-Edição Pastoral- Editora Paulus
                           Bíblia de Estudo- NVI

sábado, 1 de novembro de 2014

O grande mistério da oração

" Da mesma forma o Espírito nos ajuda em nossa fraqueza, pois não sabemos como orar, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. E aquele que sonda os corações conhece a intenção do Espírito, porque o Espírito intercede pelos cristãos de acordo com a vontade de DEUS."                       (Romanos 8:26,27)

Este é o grande mistério da oração!
Este é o delicado mecanismo divino que as palavras não podem interpretar e que a teologia não pode explicar, mas que o humilde crente conhece, mesmo sem entender!
Ah! os pesos de oração que carregamos, mesmo sem os entender! Quantas vezes o nosso coração se derrama sem mesmo articular palavras, com uma intensidade que nem podemos compreender! E contudo, sabemos que isto é um eco do trono e um segredar do coração de DEUS.
É muitas vezes antes um gemido do que um cântico, um peso, mais que um voo. Mas é um peso bendito, e um gemido cujos meios-tons encerram louvor e um gozo inexprimível. É um gemido inexprimível, como diz o texto.. Nós mesmos não o podemos expressar sempre, e às vezes não podemos senão entender que é DEUS que está orando em nós por algo que precisa do Seu toque, e que Ele entende.
E assim podemos simplesmente derramar tudo o que está no nosso coração, o peso que oprime nosso espírito, a tristeza que nos esmaga, sabendo que Ele ouve, Ele ama, Ele entende. Ele recebe; e Ele separa da nossa oração tudo o que é imperfeito, ignorante e errado, e apresenta o restante como o incenso do grande Sumo Sacerdote, diante do trono, nas alturas; e a nossa oração é ouvida, aceita e respondida em Seu nome. - A.B. Simpson
Não é necessário estar sempre falando com DEUS e ouvindo sua voz para estarmos em comunhão com Ele. Há uma comunhão inarticulada, mais doce do que palavras.
A criança pequena pode sentar-se o dia inteiro ao lado da mãe atarefada e, embora poucas palavras sejam trocadas e ambas estejam ocupadas - uma com os brinquedos, e outra com o serviço - podem ambas estar em perfeita comunhão. A pequena sabe que a mãe está ali, e sabe que está tudo bem. Assim, o cristão e o Salvador podem passar horas em silenciosa comunhão de amor; mesmo ocupado com as coisas mais comuns, ele está consciente de que cada coisa pequena que faz é tocada pela cor da Sua presença e o sentimento da Sua aprovação e benção.
Então, quando pressionados por fardos e dificuldades complicados demais para serem postos em palavras, ou misteriosos demais para serem expressos ou compreendidos, como é bom cair nos Seus braços de Amor e simplesmente soluçar ali a tristeza que não podemos exprimir! - Selecionado
Texto extraído do livro- Mananciais no Deserto- Lettie Cowman

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Aromas suaves do coração


"Quem tiver olhos, leia;  inteligência, compreenda; coração, sinta."

"Nardo e açafrão, cálamo e canela, com todas as madeiras aromáticas, mirra e aloés e as mais finas especiarias". Cântico dos Cânticos 4:16

Algumas das especiarias mencionadas neste capítulo são bastante sugestivas. O aloés era uma especiaria amarga, e fala-nos da doçura das coisas amargas, o doce-amargo, que quem já provou, sabe bem quanto agrada ao paladar. A mirra era usada para embalsamar os mortos, e fala-nos de morrermos para alguma coisa. É a doçura que vem ao coração depois que ele morreu para a vontade-própria, o orgulho e o pecado.
Oh, o encanto inexprimível que paira em torno de alguns cristãos, simplesmente porque trazem no semblante açoitado pela disciplina e no espírito dulcificado, as marcas da cruz; a santa evidência de terem morrido para o que uma vez foi orgulho e força, mas que agora está para sempre aos pés do Senhor.
 É o encanto celeste de um espírito quebrantado e um coração contrito, a música que brota de uma tonalidade menor.
E ainda, o incenso, com a fragrância que procedia do toque do fogo. Era aquele pó queimado que se erguia em nuvens de doçura do seio das chamas. Fala-nos do coração cuja doçura tem-se desprendido talvez através das chamas da aflição, até que o lugar santo da alma é cheio de nuvens de oração e louvor.
Estamos nós derramando as especiarias, os perfumes, os aromas suaves do coração?
The Love-Life of our Lord
Do livro- Mananciais no Deserto- Lettie Cowman

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

"A terra é nossa mãe"- chefe Seatle- 1854

"O homem não tramou o tecido da vida; ele é simplesmente um de seus fios.
 Tudo o que fizer ao tecido, fará a si mesmo".

Quem tiver olhos e inteligência para ler e compreender, leia:

"Como é que se pode comprar ou vender o céu, o calor da terra? Essa ideia nos parece estranha.
Se não possuímos o frescor do ar e o brilho da água, como é possível comprá-los?
Cada pedaço da terra é sagrado para meu povo. Cada ramo brilhante de um pinheiro, cada punhado de areia das praias, a penumbra na floresta densa, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados na memória e experiência de meu povo. A seiva que percorre o corpo das árvores carrega consigo as lembranças do homem vermelho.
Os mortos do homem branco esquecem sua terra de origem quando vão caminhar entre as estrelas.
Nossos mortos jamais esquecem esta bela terra, pois ela é a mãe do homem vermelho. Somos parte da terra e ela faz parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs; o cervo, o cavalo, a grande águia são nossos irmãos. Os picos rochosos, os sulcos úmidos nas campinas, o calor do corpo do potro e o homem - todos pertencem à mesma família.
Portanto, quando o Grande Chefe em Washington manda dizer que deseja comprar nossa terra, pede muito de nós. O Grande Chefe diz que nos reservará um lugar onde possamos viver satisfeitos. Ele será nosso pai e nós seremos seus filhos. Portanto, nós vamos considerar sua oferta de comprar nossa terra. Mas isso não será fácil. Esta terra é sagrada para nós.
Essa água brilhante que escorre nos riachos e rios não é apenas água, mas o sangue de nossos antepassados. Se lhe vendermos a terra, vocês devem lembrar-se de que ela é sagrada, e devem ensinar às suas crianças que ela é sagrada e que cada reflexo nas águas límpidas dos lagos fala de acontecimentos e lembranças da vida do meu povo.
O murmúrio das águas é a voz de meus ancestrais.
Os rios são nossos irmãos, saciam nossa sede. Os rios carregam nossas canoas e alimentam nossas crianças. Se lhe vendermos nossa terra, vocês devem lembrar e ensinar a seus filhos que os rios são nossos irmãos, e seus também. E, portanto, vocês devem dar aos rios a bondade que dedicariam a qualquer irmão.
Sabemos que o homem branco não compreende nossos costumes. Uma porção da terra, para ele, tem o mesmo significado que qualquer outra, pois é um forasteiro que vem à noite e extrai da terra aquilo que necessita. A terra não é sua irmã, mas sua inimiga, e quando ele a conquista, prossegue seu caminho. Deixa para trás os túmulos de seus antepassados e não se incomoda.
Rapta da terra aquilo que seria de seus filhos e não se importa. 
A sepultura de seu pai e os direitos de seus filhos são esquecidos. Trata sua mãe, a terra, e seu irmão, o céu, como coisas que possam ser compradas, saqueadas, vendidas como carneiros ou enfeites coloridos. Seu apetite devorará a terra, deixando somente um deserto.
Eu não sei, nossos costumes são diferentes dos seus. A visão de suas cidades fere os olhos do homem vermelho. Talvez seja porque o homem vermelho é um selvagem e não compreenda.
Não há um lugar quieto nas cidades do homem branco. Nenhum lugar onde se possa ouvir o desabrochar de folhas na primavera ou o bater das asas de um inseto.
Mas talvez seja porque eu sou um selvagem e não compreenda.
O ruído parece somente insultar os ouvidos. E o que resta da vida se um homem não pode ouvir o choro solitário de uma ave ou o debate dos sapos ao redor de uma lagoa à noite?
Eu sou um homem vermelho e não compreendo.
O índio prefere o suave murmúrio do vento encrespando a face do lago, e o próprio vento, limpo por uma chuva diurna ou perfumado pelos pinheiros.
O ar é precioso para o homem vermelho, pois todas as coisas compartilham o mesmo sopro - o animal, a árvore, o homem, todos compartilham o mesmo sopro. Parece que o homem branco não sente o ar que respira. Como um homem agonizante há vários dias, é insensível ao mau cheiro.
Mas se vendermos nossa terra ao homem branco, ele deve lembrar que o ar é precioso para nós, que o ar compartilha seu espírito com toda a vida que mantém. O vento que deu a nosso avô seu primeiro inspirar também recebe seu último suspiro. Se lhe vendermos nossa terra, vocês devem mantê-la intacta e sagrada, como um lugar onde até mesmo o homem  branco possa ir saborear o vento açucarado pelas flores dos prados.
Portanto, vamos meditar sobre sua oferta de comprar nossa terra. Se decidirmos aceitar, imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais desta terra como seus irmãos.
Sou um selvagem e não compreendo qualquer outra forma de agir.
Vi um milhar de búfalos apodrecendo na planície, abandonados pelo homem branco que os alvejou de um trem ao passar. Eu sou um selvagem e não compreendo como é que o fumegante cavalo de ferro pode ser mais importante que o búfalo, que sacrificamos somente para permanecermos vivos.
O que é o homem sem os animais?
Se todos os animais se fossem, o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Pois o que ocorre com os animais, breve acontece com o homem. Há uma ligação em tudo.
Vocês devem ensinar às suas crianças que o solo a seus pés é a cinza de nossos avós. Para que respeitem a terra, digam a seus filhos que ela foi enriquecida com as vidas de nosso povo. Ensinem às suas crianças o que ensinamos às nossas, que a terra é nossa mãe.
Tudo o que acontecer à terra, acontecerá aos filhos da terra. Se os homens cospem no solo, estão cuspindo em si mesmos.
Isto sabemos: a terra não pertence ao homem; o homem pertence à terra.
Isto sabemos: todas as coisas estão ligadas como o sangue que une uma família. Há uma ligação em tudo.
O que ocorrer com a terra recairá sobre os filhos da terra.
O homem não tramou o tecido da vida; ele é simplesmente um de seus fios. Tudo o que fizer ao tecido, fará a si mesmo.
Mesmo o homem branco, cujo DEUS caminha e fala com ele de amigo para amigo, não pode estar isento do destino comum. É possível que sejamos irmãos, apesar de tudo. Veremos.
De uma coisa estamos certos - e o homem branco poderá vir a descobrir um dia:
nosso DEUS é o mesmo DEUS.
Vocês podem pensar que O possuem, como desejam possuir nossa terra; mas não é possível.
Ele é o DEUS do homem, e Sua compaixão é igual para o homem vermelho e para o homem branco.
A terra lhe é preciosa, e feri-la é desprezar seu Criador.
Os brancos também passarão; talvez mais cedo que todas as outras tribos.
Contaminem suas camas, e uma noite serão sufocados pelos próprios dejetos.
Mas quando de sua desaparição, vocês brilharão intensamente, iluminados pela força do DEUS que os trouxe a esta terra e por alguma razão especial lhes deu o domínio sobre a terra e sobre o homem vermelho.
Esse destino é um mistério para nós, pois não compreendemos que todos os búfalos sejam exterminados, os cavalos bravios sejam todos domados, os recantos secretos da floresta densa impregnados do cheiro de muitos homens, e a visão dos morros obstruída por fios que falam.
Onde está o arvoredo?
Desapareceu.
Onde está a águia?
Desapareceu.
É o final da vida e o início da sobrevivência."

Este documento - dos mais belos já escritos sobre o uso do solo - foi divulgado pela Organização das Nações Unidas. É uma carta escrita, em 1854, pelo chefe Seatle ao presidente dos EUA, Franklin Pierce, quando este propôs comprar as terras de suas tribos, concedendo-lhe uma outra "reserva".